Eu sou ateu. Mas confesso que tenho algumas crenças que posso dizer que são quase religiosas, manias que tenho que não sei explicar porque continuo fazendo, mesmo sabendo que elas não têm nenhuma interferência na realidade. Eu creio no poder das 3 batidas na madeira para espantar os maus pensamentos. Toda vez que algo ruim passa pela minha cabeça, eu procuro algum objeto de madeira que esteja próximo e dou três soquinhos nele. E repito esse gesto várias vezes, quase como um TOC. Por quê? Não sei.
Eu acredito também na força da figa para evitar gols dos adversários do meu time. Figa vocês sabem o que é, né? É colocar o dedo polegar entre o indicador e o dedo do meio. Toda vez que o adversário pega na bola eu faço figa com a mão direita, como se isso, mais do que o esquema defensivo de meu time, fosse capaz de evitar gols do adversário. Eu só não faço figa quando o adversário bate pênaltis, para não forçar demais a minha crença no poder da figa como aniquilador do ataque do outro time.
Pois é, eu tenho fé nas três batidas na madeira e na figa, mas não fico tentando convencer os outros a acreditar nas 3 batidas na madeira ou no poder da Figa. Não saio pelo mundo apregoando o “3-batidismo-na madeira” ou o “Figoismo” para arrecadar fundos ou arrebanhar fiéis, e muito menos seria capaz de matar quem não acredita nessas minhas crenças ou mesmo desencadear uma guerra por conta delas. E se alguma dessas ideias expansionistas passar pela minha cabeça, mesmo de leve, eu prontamente farei uma figa e baterei três vezes na madeira para espantar esses pensamentos!
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O CERVEJEIRO GOURMET
AUIKA!
Cientistas acham que pode haver vida em Vênus. Eles chegaram a essa conclusão depois de analisar um gás lá no planeta. Bacana, parece até que os caras são fodões, mas na verdade esses caras estão muito atrasados. Eu já sabia disso desde criança e não precisei analisar gás nenhum. Aliás, eu não só sei que existe vida em Vênus, como sei quem mora lá: são os Incas Venusianos. Os cientistas não assistiam National Kid, meu programa favorito quando devia ter uns quatro anos de idade.
Aliás, eu nunca entendi a obsessão do cinema americano por Marte. Os alienígenas em Hollywood são sempre marcianos, nunca são de Vênus. Mas os japoneses já sabiam que se existe vida fora da terra, ela está em Vênus, não em Marte. E sabem também que esses moradores de Vênus, os Incas Venusianos, são muito perigosos. Até o National Kid penou para derrotá-los.
Falando de National Kid, muita gente lembra da frase “Celacanto provoca maremoto”, que ficou famosa quando foi pichada em vários muros do Rio de janeiro há um tempo atrás.

Mas pouca gente recorda que é do National Kid o momento mais triste da dramaturgia mundial, a cena que mais me fez chorar na vida em qualquer filme ou seriado. Foi quando, no último episódio, o National Kid se despede de seus amiguinhos terráqueos e volta para o seu planeta. Eu, criança, me debulhei em lágrimas, chorei rios, como nunca mais fiz em minha vida diante de uma tela de TV ou cinema. Mais um ponto para os japoneses!
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
SEU CASSETA
Um dia , eu estava andando na rua e alguém gritou:
– Ei, Madureira!
Eu sabia que apesar do cara ter errado o meu nome, ele queria falar comigo, mas fiquei na dúvida se respondia ou não. Concluí que, se o cara não sabia o meu nome, ele também não sabia quem é o Madureira, pois se soubesse perceberia que eu não sou ele. Resolvi atender a figura.
Outra vez eu estava andando na rua e gritaram:
– Ei, seu casseta!
Eu acho legal terem criado essa maneira de chamarem a nós do Casseta & Planeta. Na verdade, alguém criou esse chamamento e nós gostamos, a ponto ter usado ele no programa, oficializando essa maneira de se referirem a um de nós quando não sabem ou não tem certeza do nosso nome. É claro que falei com o sujeito.
Uma vez eu estava andando na rua e um cara gritou:
– Ei, Acarajette!
Achei engraçado. Fiquei até orgulhoso de ser chamado pelo nome da personagem que fazia muito sucesso e atendi o sujeito.
Outra vez eu estava andando na rua e um sujeito gritou:
– Ei, Buzunga!
Eu sabia que ele queria falar do Bussunda, percebi que ele tinha me reconhecido como um dos cassetas e provavelmente o nome que veio à sua cabeça foi o do saudoso Bussunda ou, no caso, algo parecido.
Um dia, eu estava andando na rua e um cara gritou:
– Ei, Beto Silva!
Até que enfim alguém acertou o meu nome! Fui falar com o cara, que perguntou:
– Você trabalha no Faustão?
– Não, – respondi – sou do Casseta & Planeta.
– Ah, tá, então eu confundi, achei que era outra pessoa. Mas foi legal te conhecer, seu Casseta! Manda abraços pro Buzunga e praquele outro também, aquele que se parece com o Luis Miranda.
NO DESFILE DE 7 DE SETEMBRO
Aos 18 anos entrei para a universidade. Adorei aquele ambiente acadêmico e naquele tempo, 1978, em plena ditadura militar, tive contato com o movimento estudantil. Comecei a frequentar o Centro Acadêmico e a participar da luta contra a ditadura, mas no final do ano fui obrigado a me alistar no exército. Não queria servir de jeito nenhum, afinal eu era contra o governo militar, não podia entrar justamente para o exército. Mas sabe quando você vai dando todos os passos errados? Podia ter arrumado um atestado médico falso, muita gente tentava isso. “Se eles desconfiarem que é falso pode ser pior”, me disseram. Passei no exame médico. Podia ter me alistado normalmente, mas seguindo conselhos vindos nem sei de onde, me alistei no CPOR. “Lá é mais fácil de sair”, disseram. Mas justamente naquele ano os caras resolveram “aumentar o nível da tropa” no CPOR e pegar gente que estava na faculdade. E ali estava eu, o público alvo ideal. Fui passando por todas as fases sem conseguir me livrar, até que eu finalmente consegui um pistolão. Era um capitão do CPOR. Então, na última etapa da seleção, quando eu já estava esperando há horas para saber se ia ou não servir o exército, o meu pistolão, o tal capitão, mandou me chamar. Eu fui lá , crente que o cara ia me liberar mas ele falou:
– Olha, eu tenho duas pessoas pra tirar daqui. Você e mais um. Mas eu só vou conseguir livrar um. O problema é que o outro é meu sobrinho.
E assim eu dancei.
De repente , eu, o jovem que havia entrado na universidade, se encantado com o movimento estudantil, vestiu um uniforme verde-oliva e foi aprender a ser soldado em plena ditadura militar. Ralei bastante no início, e aguentei calado vários oficiais fazendo discursos contra os subversivos que atacavam o governo da Revolução de 64, achando sempre que eles estavam falando comigo. De vez em quando, eu tomava coragem e, diante de um discurso direitista qualquer, sussurrava para algum recruta amigo que estivesse ao meu lado “Abaixo a ditadura!”. Nunca ninguém falou nada, provavelmente porque eu falava tão baixinho que ninguém nem escutava.
Até que chegou o sete de setembro. E eu descobri que íamos desfilar na Avenida presidente Vargas. Justo eu, que lutava contra a ditadura, desfilando para enaltecer o governo militar? Fiquei mal, morri de vergonha. Não contei para nenhum amigo, principalmente a galera do movimento estudantil. Mas para os meus pais eu não tive como esconder. Minha mãe se animou e foi assistir ao desfile.
Depois, já em casa, eu perguntei para ela:
– Você me viu?
– Era todo mundo igualzinho, mas eu consegui te ver.
– E aí , o que achou?
– Você estava lindo, meu filho. E era o único que estava marchando no passo certo!
PENSAMENTOS LIVRES E SOLTOS 2
A VIDA NA PANDEMIA
AMIGO BRASILEIRO
Amigo chama o outro para conversar. Depois de falar de futebol, tempo, pandemia e esses papos tradicionais, ele começa a falar dele:
– Sabe como é, eu me considero um sujeito em obras, um cara que está em constante construção, entende?
– Bacana isso. Eu também me sinto um pouco assim. Também acho que na vida a gente está sempre aprendendo.
– Não, você não entendeu. É que eu sou brasileiro e sabe como é obra no Brasil… o orçamento estourou. Será que você não tem aí uma verba de suplementação?
HOMEOPATIA
Cheguei na festa do amigo, que me recebeu e perguntou:
– Quer beber alguma coisa?
Eu sabia que o meu amigo era bem natureba, então fiquei na dúvida sobre o que pedir. Foi ele que ofereceu:
– Quer um uísque?
– Você tem uísque? Achei que…
– Imagina, claro que tem uísque! Copo curto ou longo?
– Longo. Com bastante gelo.
O amigo trouxe um copo longo. Estava cheio de água e gelo.
– O que é isso? – Perguntei.
– Seu uísque.
– Diferente, né? A cor é um pouco clara, parece água.
– É uísque escocês legítimo.
– Nunca tinha visto um assim… transparente.
– É porque é homeopático.
– É mesmo? Não conhecia.
– A gente pega o uísque e dilui uma vez, duas vezes, dez vezes, vai diluindo cada vez mais. Fica apenas a essência. É uma delícia, pode beber. Só não exagera que esse troço é forte pacas!